MOVIMENTOS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA - Breve Análise.
Análise do artigo ABORDAGENS TEÓRICAS NO
ESTUDO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA AMÉRICA LATINA - Maria da Glória Gohn
O artigo “Abordagens
Teóricas no Estudo dos Movimentos Sociais na América Latina”, de Maria da
Glória Gohn, é uma análise do associativismo civil na América Latina e das
bases teóricas que sustentam os estudos sobre os movimentos sociais em um dos
contextos mais complexos do mundo: a América Latina. A autora, renomada
socióloga e referência no campo, aborda as principais correntes teóricas,
dialogando com a história política e social da região, marcada por
desigualdades estruturais e resistência contínua, começando pelo reconhecimento
da especificidade histórica dos movimentos sociais latino-americanos. Ao
contrário de outras regiões, esses movimentos emergem em um contexto de
colonialismo tardio, regimes autoritários e profundas desigualdades sociais, o
que os diferencia substancialmente de movimentos em países desenvolvidos.
A autora organiza sua
análise em torno de três frentes de ações:
1. Movimentos identitários de segmentos
sociais excluídos que lutam por direitos sociais, econômicos, políticos e
culturais. Exemplos: lutas das mulheres, dos afrodescendentes, dos índios, dos
grupos geracionais (jovens, idosos), grupos portadores de necessidades
especiais, grupos de imigrantes;
2. Movimentos de luta por melhores condições
de vida e de trabalho que lutam por melhores condições de moradia e emprego,
como também saúde, educação, transporte, lazer...;
3. Movimentos globais que atuam em rede e
são atualmente responsáveis pela articulação e globalização de muitos
movimentos sociais.
A autora traz exemplos de
grandes movimentos sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra no Brasil), a Via Campesina e diversos outros movimentos
ambientalistas, étnicos, educacionais e culturais que atuam na reivindicação e fiscalização
das políticas públicas na América Latina. No entanto, o texto demonstra atualmente,
após a globalização, que os movimentos sociais ampliaram suas lutas por
reconhecimento, identitários e culturais, além das lutas já conhecidas de
demandas socioeconômicas, diversificando as abordagens. Daí surgem as teorias separadas
da seguinte forma:
1.
Teorias
construídas a partir de eixos culturais: construção identitária, criando
vínculos a partir de um processo reflexivo para um agir coletivo;
2.
Teorias
focadas no eixo da justiça social: busca fazer justiça a fim de compensar
injustiças históricas;
3.
Teorias
que destacam a capacidade de resistência dos movimentos sociais, de lutas em
busca da construção de um novo mundo: busca autonomia, não focadas no mercado;
4.
Teorias
que canalizam todas as atenções para os processos de institucionalização das
ações coletivas: baseia-se nas teorias da privação social.
Gohn enfatiza a importância
de conceitos como cidadania, participação política e a luta dos movimentos
sociais latino-americanos que vão além da resistência contra a opressão,
buscando criar novas formas de participação e reorganização do espaço público e
cita que a identidade política dos movimentos sociais é variável em contextos e
conjunturas e muda com as aprendizagens e com as leituras de mundo dos sujeitos
envolvidos.
Dentre os diversos teóricos
que definem “rede”, a chegada das redes sociais é citada no texto como um marco,
não existindo mais o limite territorial para a articulação dos movimentos e se
intensificando com a criação de fóruns e grupos organizados em redes.
Tentando explicar o novo
cenário de associativismo civil latino, mais especificamente no Brasil, o artigo
demonstra um cenário diversificado e amplo, mas que atualmente percebe-se uma veia
conservadora, bem distante do que os movimentos sociais de décadas passadas lutavam
e reforça que os movimentos sociais latino-americanos transcendem demandas
materiais, articulando questões culturais e identitárias em busca de uma
sociedade mais inclusiva e democrática.
Nesse aspecto de mudança e lutas dos movimentos sociais, trago uma frase do jornalista e militante social Raúl Zibechi dita em uma entrevista (Diálogos: Resistência em Movimentos Sociais na América Latina UNVTV)
Ele afirma que “O mundo não
se muda de cima para baixo”. A base popular precisa seguir em luta com o apoio
dos governantes, com políticas públicas, para que haja de fato a aplicabilidade
das teorias nas vidas dos sujeitos, tendo como efeito uma sociedade mais justa
e igualitária. Pensando em educação popular, Raul traz um aspecto bem
importante sobre como os estudiosos utilizam do saber periféricos e não é devolvido
para essa população e dessa forma não há um vínculo necessário desses dois
grupos, reproduzindo uma relação hierárquica colonial e deixando a comunidade distante
dos ensinamentos da universidade. Vale a pena assistir o vídeo acima e aprender
um pouco mais sobre como essas mudanças atuais têm modificado a ideia de
movimento social e como os militantes e estudiosos precisam se reformular e
interagir para se criar uma luta coletiva, resistente aos malefícios capitalistas,
em defesa de uma sociedade mais justa para todos.
Referências
GOHN, Maria da Glória. Abordagens Teóricas no Estudo dos Movimentos Sociais na América Latina. Caderno CRH, Salvador, v. 21, n. 54, p. 439-455, Set./Dez. 2008.
UNBTV, Diálogos: Resistência em
Movimentos Sociais na América Latina. Youtube, 10 de nov. de 2017. 21min58s. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=kcCibWQmu_o.
Acesso em: 23/12/2024.

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